Meu celular sumiu e eu percebi o quanto dependo dele
Quando eu perdi meu celular e quase perdi a mim mesma...
Ontem eu fui dormir sem saber onde estava meu celular.
O que, pra muita gente, pode parecer algo banal, pra mim não é.
Eu ando com ele pela casa como se fosse um cordão umbilical.
Levo pra cozinha, pro quarto, pro banheiro… sempre com uma música tocando, um podcast rolando, resolvendo alguma coisa, falando com quem amo.
Mas ontem, eu estava tão cansada de estudar, tão exausta mentalmente, que simplesmente apaguei.
Sem checar. Sem procurar. Sem nem perceber.
Hoje pela manhã, acordei com uma sensação estranha.
Um vazio pequeno, mas incômodo.
Como se estivesse faltando alguma coisa.
Abri os olhos e vi o relógio: 06:42.
Na hora, um leve desespero.
Eu normalmente acordo às 06:30, não só pra levantar, mas pra começar o dia com calma.
Respirar. Orar. Me alinhar antes de acordar os meninos.
E ali, naquele momento, já me senti atrasada.
Desorganizada. Fora do eixo.
Levantei e comecei a procurar o celular nos lugares mais óbvios.
Nada.
Fui pra cozinha. Voltei pro quarto. Olhei de novo.
E então veio um pensamento, daqueles rápidos, quase automáticos:
“Será que meu marido escondeu de propósito?”
Ele sempre fala que eu estou muito conectada.
E, no fundo, eu sei que ele tem razão.
Junto com esse pensamento, veio o mau humor.
E logo depois; a raiva.
Mas, dessa vez, algo foi diferente.
Eu parei.
Respirei.
E me observei.
Meu marido não faria isso.
Ele me respeita.
Voltei pro quarto e, mesmo sem o celular, fiz minha rotina da manhã.
Respirei. Orei. Fiquei em silêncio.
Segui.
Às 07:00, ouvi um som familiar.
O alarme.
Parei tudoooooo.
Era ele.
Vinha do quarto dos meninos.
Entrei, dei bom dia, beijei cada um deles, peguei o celular, coloquei em cima da mesa de jantar…
e fui preparar o café da manhã e o lanche da escola.
Foi só ali, depois de levá-los à escola, sentada, com uma xícara de café na mão, que tudo fez sentido.
Duas coisas ficaram muito claras pra mim.
A primeira:
eu estou evoluindo.
Porque eu senti o incômodo.
Senti o mau humor.
Senti a raiva.
Mas não fui dominada por eles.
Eu observei.
E escolhi não agir no impulso.
A segunda:
eu estou mais conectada ao celular do que gostaria de admitir.
O simples fato de não tê-lo ao meu alcance me desestabilizou.
Me tirou do eixo.
Me fez sentir como se algo essencial estivesse faltando.
E isso me acendeu um alerta.
Eu nasci sem celular.
Vou morrer sem ele.
Mas, no meio do caminho, posso acabar me afastando de mim mesma…
se eu continuar preenchendo todos os silêncios com estímulos.
Com barulho.
Com distração.
Com consumo.
Nem todo vazio precisa ser preenchido.
Nem toda ansiedade precisa ser distraída.
Existem outras formas de se autorregular.
Mais profundas.
Mais silenciosas.
Mais verdadeiras.
Hoje foi só um episódio simples.
Um celular perdido dentro de casa.
Deflagrou uma mãe imigrante vivendo no automático.
Mas, pra mim, foi bom porque me acendeu uma red flag.
Dessas que a gente sente… mais do que entende.
E eu quero colocar isso em prática. A autoregulação.
Aos poucos.
Com consciência.
Sem radicalismo.
Só voltando…
pra mim.
Foto de Victor Freitas: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoa-segurando-o-i-phone-6-744780/

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