Por que morar fora pode te deixar mais carente?
Nunca me senti tão carente quanto me sinto morando fora.
E é estranho dizer isso, porque não é uma carência comum.
Não é simplesmente falta de pessoas.
É falta de presença… de conexão… de reconhecimento no olhar.
É uma sensação difícil de explicar: a de perder rostos familiares, com ou sem muita intimidade.
Aquelas pessoas que, só de olhar, a gente já sente que conversou tudo… sem dizer uma palavra.
Quando a gente mora no exterior, algo muda dentro da gente.
A gente se apega mais fácil.
Fica mais sensível. Mais aberto. Mais carente, talvez.
E quando a gente imigra mais de uma vez… muda mais ainda.
A nossa versão de nós mesmos muda.
E, com isso, nossas amizades, afinidades, prioridades… tudo vai se reorganizando.
Aqui no Canadá, em dois anos, eu já perdi pessoas que eu considerava família do coração.
E não foi por briga, nem por ruptura…
Foi a vida acontecendo.
Pessoas seguindo caminhos lindos, necessários, maiores do que aquilo que eu consigo entender agora.
E mais uma vez, estou me deparando com isso.
Um casal que gostamos muito está se preparando para ir embora.
Também por um motivo bonito: espalhar o amor de Deus em outro lugar.
Eles não são de frequentar a nossa casa, mas costumam ser os mais próximos do dia a dia…
Aquelas pessoas de bem. Da paz.
Aquelas que acolhem a gente como um abraço quentinho.
E hoje, escrevendo esse texto, eu me permito sentir.
Me permito ficar triste.
Me permito chorar.
Porque eles vão fazer falta.
Para mim.
Para a nossa família.
Hoje eu conversei com Deus.
Perguntei pra Ele por que pessoas que a gente gosta tanto, às vezes, se afastam da nossa vida.
E, mesmo sem entender, eu sei que existe um motivo.
Acho que a gente vive um tipo de luto constante quando é imigrante.
Um luto silencioso, que quase ninguém fala sobre.
A gente vive esse luto quando deixa para trás pessoas que ama.
Quando volta para visitá-las e percebe que… a vida seguiu sem a nossa presença.
Como se, depois dos primeiros dias, a nossa existência já não fosse mais tão necessária ali.
A gente vive esse luto quando retorna para o país onde mora.
Quando perde amigos queridos. Quando perde familiares.
Ou quando descobre que algumas pessoas não eram tão recíprocas quanto a gente imaginava.
A gente vive esse luto nas mudanças: de casa, de cidade, de ciclo.
(Porque, sim… mudar faz parte da vida de quem mora fora.)
Na falta da comida que acolhe.
Da língua que abraça.
De uma casa de vó para ir num domingo qualquer.
A vida aqui é um emaranhado de emoções.
Todas misturadas…
Todas fruto das nossas escolhas.
E, no fundo, a gente sabe: nada é para sempre.
Nem os lugares.
Nem as fases.
Nem até nós mesmos.
Mas, de tudo o que a gente perde…
As pessoas que amamos, e que nos amaram de volta,
essas ficam.
Ficam na memória.
Ficam no coração.
Ficam como uma lembrança doce… quente… viva.
E talvez seja isso que sustenta a gente.
Porque, mesmo em meio a tantas despedidas…
amar ainda vale a pena.
Foto de Taryn Elliott: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoa-segurando-papel-branco-para-impressora-4340792/

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